Havia quatro reis que governavam uma região onde havia areia movediça por toda parte.
Um dia, em uma reunião do conselho da região, eles conversavam sobre como lidavam com o problema dos viajantes desafortunados que caiam nas areias movediças em seus países.
O primeiro falava: “Não tenho problema quanto a isto; deixo algumas placas de aviso. Aparentemente, muitos conseguem ler e desviam do perigo. E os que não desviam e caem nas areias conseguem se salvar sozinhos, pela suas próprias capacidades. Pensando bem, todos podem se salvar, mas nem todos o fazem; alguns preferem afundar até morrer. Todos os que se salvam me reverenciam, mas com certeza não por salvá-los das areias movediças.”
Já o segundo dizia: “Também deixo placas de aviso. Não sei se não conseguem ler ou simplesmente ignoram. Fato é que, quando caem, eles mesmos tomam a iniciativa de se salvar das areias, por vezes necessitando de uma pequena ajuda minha. Quando saem das areias todos ficam muito felizes e fazem questão de mostrar sua devoção a mim. Mas realmente há alguns que, mesmo podendo se salvar ou pelo menos me chamar, não o fazem. Preferem afundar! Deve ser reflexo desse niilismo que anda fazendo a cabeça das pessoas…”
O terceiro então começa o seu relato: “Interessante ouvir o relato de vocês, mas no meu país as areias não são tão fáceis de escapar. Assim como vocês, eu deixo placas de aviso, mas devido a uma incapacidade inata dos viajantes, eles não conseguem lê-las. Todos caem nas areias e começam a afundar. Eles parecem todos tão absortos em si mesmos e em seus próprios planos que não conseguem perceber a realidade de que caíram na areia movediça. Então eu vou até eles, dou-lhes um chacoalhão, os olho nos olhos e lhes mostro a sua real situação; quando tenho certeza de que estão cientes de sua condição, aviso: ‘Vou te salvar, está bem?’ Alguns, muito felizes, se deixam ser ajudados e, uma vez libertos, me reverenciam como seu salvador. Outros, por não quererem aceitar a realidade, resistem à minha ajuda; esses, com grande pesar, eu deixo afundar.”
O quarto rei, após ouvir o relato dos outros três, põe-se a falar: “Eu não entendo vocês! Com todo o poder que têm de serem imunes as essas areias, deixam as pessoas fazerem o que elas querem e não se beneficiam de seus poderes. Vou lhes contar como acontece no meu país. Lá não havia areia movediça no início. Fui eu quem as coloquei lá; eu as preparei para serem inescapáveis. Além disso, todos as estradas do meu país foram planejadas para, invariavelmente, levar os viajantes a cair em uma das armadilhas de areia. Também coloquei placas de aviso, mas me certifiquei de que fossem escritas em um idioma que nenhum viajante pudesse ler, dada sua incapacidade de compreender tal idioma. Desta forma, todos os viajantes que usam as estradas do meu país caem nas areias que eu forjei. Alguns deles eu salvo sem dar nenhuma chance de resistência à minha ajuda e eles me reverenciam como o seu grande salvador. Outros eu, deliberadamente, deixo afundar e ainda os convenço que a culpa é exclusivamente deles, pois eles insistiram em seguir adiante, ignorando todas as placas de aviso. Assim, me glorio em ser bom para os que eu salvei, em ser justo para os que eu deixei afundar e em ser soberano sobre todas as coisas de forma que nada pode acontecer diferentemente do que eu planejei.”
Os outros três se entreolham e questionam o quarto rei: “Isso nos parece um pouco cruel e sádico, além de narcisista”. Ao que ele responde: “Vocês não entendem? Nós somos reis! Eles são apenas viajantes. Nós temos o poder e a glória; não devemos nada a eles”.
Os três se olham novamente em silêncio.
Os dois primeiros então se levantam e vão saindo: “Bem, está na nossa hora… Ainda temos que passar em Cartago e Orange e já está ficando tarde… Até mais!”
O terceiro então olha para o amigo com olhar benevolente e diz: “Precisamos conversar. Você anda tomando muito chá de tulipa. Vou te apresentar alguns fatos que vão te fazer amar todos os viajantes.”




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